DILÚVIOS

Dilúvios humilham certezas humanas, porque viram lama. Dilúvios acendem esperanças humanas, porque solidariedades são barcas.
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Há tempos Noé vem avisando: olha o aquecimento global, olha Maldivas sumindo do mapa, olha aquele teu carro a diesel, olha aquela ida desnecessariamente motorizada à padaria da esquina pra comprar pão, olha aquele chuveiro aberto só pra ouvir o barulho da água... Mas ninguém costuma ouvir Noés, porque quando predicam, geralmente tá dando praia...
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O inesperado é uma certeza. Olhando bem, todo mundo já sofreu um dilúvio algum dia. Conheço gente que bebe dilúvios no jantar... e mesmo assim, é gente que não ousa parar de cantar.
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Vi um homem, em Rio Bonito, dois terços do corpo debaixo de pedra dura e terras moles... Ali, com seu braço pra fora, a cabeça na lama, aquele homem, sem poder sair. Um acidente. Duro é ver gente que se embrulha na coberta das lamas e na colcha das pedras, gente que busca a desgraça, no dia a dia... em ressentimentos que criam como animaizinhos, alimentando-os a colherinhas de rancor desnecessário... gente que sai atrás de alívios químicos, paraísos de crepom e neón... Gente que se afunda em traições insanas, em tradições insensatas, em espertezas torpes, em mentiras vidas... Amanhã, com as pernas presas, embaixo da pedra, reclamam... Pior que não há bombeiro que salve quem a si próprio decidiu naufragar...
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Não há irmandade maior do que a dos homens miseráveis, dos que perderam tudo. Ali, alojados em colchonetes no chão dos ginásios, comendo sopa doada, usando roupas usadas, aprendendo o sorriso dos que não têm nada e mesmo assim, cantam. Lêem o Livro de Jó. Uma riqueza assim, devíamos almejar. Sei que somos fracos para desejar tanto. Nem todo mundo é Diógenes, e pode viver sábio, festivo e iracundo, tendo como morada, um barril de nada. Nem todo mundo é apóstolo e pode dormir sobre pedras e comer o que Deus faz chover do céu. Nem todo mundo é Francisco de Assis. Mas não precisamos querer ser o George Soros ou o Geroge Bush da esquina. Isso já ajudava.
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Quando os morros derretem como em Santa Catarina, quando as pedras rolam como cometas terrestres, arrastando matas, soterrando casas... quando casas desmoronam como se fossem de fósforo ou cartas, em horas assim, precisamos refundar os alicerces da nossa vida. Perder vaidades. Aprender grandiosidades que moram no simples. O melhor de um homem não está na veste que o cobre nem na casa que o veste. O melhor de um homem é o que mora nele. Nestas horas é que gente oca se perde.
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Horas assim ensinam também como somos cruéis... Como podemos saquear casas alheias, supermercados... movidos por maldade? Movidos por desespero? Nestas horas, conhecemos as pessoas. É fácil ser correto em tempos de paz, é fácil ser tranquilo na bonança. Forte é o homem que, mesmo que haja dilúvio, devolve a bóia que ao outro pertence.
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Senhor, coloca sol nos corações daquelas pessoas em Santa Catarina. Que as águas violentas não o apaguem. Que renasçam mais fortes, da tragédia. Que o estado se reconstrua, e que as pessoas se aprendam em estado de reconstrução contínua. É viver movente, nômade, este o viver difícil, mas o único sábio.